Imagine um trabalho que mude a vida das pessoas para melhor. Emprego e renda servindo como catalisadores para que milhões de indivíduos melhorem seu modo de viver.

Atualmente, entretanto, esse cenário tem sido frequentemente minado pelas condições precárias de trabalho. Trabalhar longas horas nessa situação por um salário baixo não quebra o ciclo de pobreza nem melhora vidas. Uma indústria que majoritariamente pressiona sua cadeia produtiva por prazos e redução de custos frequentemente contribui para tais condições de trabalho.

Acreditamos que é possível melhorar as vidas desses trabalhadores. Descobrimos que assumir riscos, confrontar comportamentos arraigados, estabelecer relacionamentos inesperados e oferecer oportunidades de capacitação pode levar a mudanças significativas.

Tatiana Cardeal

Nesta seção

  • 4.1

    Conhecimento e
    colaboração social

    Roberto Lopes revela o que aprendeu e como sua vida mudou após sua participação no projeto Tecendo Sonhos.

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    Acervo Aliança Empreendedora
  • 4.2

    De ponta a ponta

    Carla Stoicov explica como a capacitação de micro, pequenas e médias oficinas de costura pode impulsionar melhores condições de trabalho.

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    Tatiana Cardeal
  • 4.3

    Transparência revolucionária

    Carry Somers fala sobre como o Índice de Transparência está incentivando marcas a mudarem suas atitudes, acelerando uma revolução na moda.

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    Mahmud/Map
Valor do apoio: R$ 535 mil
(1 ano)
4.1

Conhecimento e
colaboração para
transformação
social

O programa Tecendo Sonhos, uma iniciativa da Aliança Empreendedora apoiada pelo Instituto C&A, oferece capacitação em empreendedorismo, gestão de negócios e relações justas para imigrantes latinos que atuam no setor têxtil, a fim de que eles possam ter e oferecer melhores condições de trabalho. O Roberto nos fala sobre o impacto desse programa em sua oficina e em sua qualidade de vida.

Hoje, minha oficina é regularizada, tem CNPJ e emite nota fiscal, mas foi um longo caminho para chegar até aqui. Eu vim para o Brasil pois não havia trabalho disponível na Bolívia. Trabalhei por muitos anos na oficina do meu irmão. Depois que casei, com apoio de parentes e amigos, resolvi montar minha própria oficina.

Eu achava que bastava ter uma máquina, puxar um fio de energia e pronto, minha oficina estaria pronta. Mas o ambiente era escuro, com pouca ventilação. A medida que trabalhávamos, o local ficava mais quente e isso fazia mal para todos que costuravam comigo.

Também havia o medo da fiscalização. Eu dependia de intermediadores para pegar um serviço, pois trabalhava na informalidade. Como não sabia o valor da minha hora, do meu trabalho, o lucro era pequeno. Eu tinha que produzir muito para ter uma renda adequada. Eu não entendia do negócio e das leis brasileiras.

Com o tempo, entendi que a oficina precisava melhorar para que eu pudesse ter mais portas abertas. Minha esposa, que é brasileira, sempre me alertou que era preciso me formalizar se eu quisesse crescer. Então, fui em busca de ajuda e encontrei o Programa Tecendo Sonhos.

Aprendi muitas coisas na capacitação que o programa me ofereceu, desde a importância de me formalizar e de ter um ambiente seguro na oficina, até como estabelecer um preço justo pelas peças que produzo. Posso negociar o valor das peças que produzo com as pessoas que me contratam.

A rede de apoio que o programa oferece foi muito importante neste processo. A Alinha [plataforma de apoio e aceleração de oficinas de costura] levou um técnico de segurança de trabalho à oficina e, com essa ajuda, já estávamos mais seguros e prevenidos contra incêndios. Também recebi a mentoria de uma estilista, a Flávia Aranha, que me ajudou a colocar tudo o que havia aprendido na prática.

Agora que tenho uma oficina com boa estrutura, eu e minha família temos uma via melhor. Eu consigo trabalhar oito horas por dia e produzo a mesma coisa que quando trabalhava 15 horas por dia. O ambiente bom incentiva a pessoa a trabalhar mais. Estamos muito felizes.

Valor investido na parceria:

R$
0
mil

Período de apoio:

0
meses

(2016-2017)

Nossos resultados

0

donos de oficina capacitados em gestão de negócios, saúde e segurança, precificação e formalização

Consolidação de parcerias e trabalho colaborativo com as organizações que atuam com imigrantes: Alinha, Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (Cami); Si, Yo Puedo!; Centro de Integração e Cidadania (CIC do Imigrante), da Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo; e Presença na América Latina (PAL).

Disseminação do projeto e causa: apresentação para a Comissão Municipal de Erradicação do Trabalho Escravo (Comtrae) e parceria com a Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP).

Valor do apoio: R$ 960 mil (2 anos)
4.2

De ponta a ponta

Tatiana Cardeal

O Uniethos é uma organização que busca soluções que gerem valor para os negócios e para a sociedade. Carla lidera o Programa Valor em Cadeia, que está promovendo uma colaboração entre marcas, institutos e outras organizações para oferecer capacitação aos pequenos empresários do setor têxtil e da construção civil.

A estrutura produtiva da indústria da moda e da construção civil é marcada pela presença de micro, pequenas e médias empresas, com pouca estrutura e capacidade técnica. Somente no setor têxtil, mais de 80% das 33 mil confecções regulares existentes hoje são parte desse perfil. Um cenário que impacta diretamente nas condições de trabalho desses setores. Isso nos motivou a elaborar um curso que para auxiliar essas empresas a implementar um modelo sustentável de negócio. Foi assim que, com o apoio do Instituto C&A e do Instituto Cyrela, pensamos o programa Valor em Cadeia.

Nosso intuito é contribuir para que, no setor têxtil, as oficinas que participam da iniciativa tenham ganhos reais em desempenho, bem-estar e responsabilidade ambiental. A C&A, que também é parceira do programa, indicou cerca de 100 dos seus fornecedores diretos e subcontratados da empresa para passarem pela capacitação.

Começamos as atividades no segundo semestre de 2016 e serão 10 módulos ao longo de 18 meses em que eles aprenderão sobre gestão, liderança, finanças e sustentabilidade. Além das aulas presenciais, os profissionais receberão um diagnóstico de sua empresa feito pelo Sesi, 20 horas de assessoria especializada individual, um plano de negócio focado em sustentabilidade e cursos técnicos específicos em temas relevantes para o setor têxtil. Um exercício de sinergia entre diferentes temas e organizações planejado por mais de um ano.

Queremos que esses prestadores de serviço saiam da sua zona de conforto e entendam a diferença que a sustentabilidade faz para a competitividade, a produtividade e a responsabilidade socioambiental de seus negócios. Essas pessoas têm a chance de se reinventar e melhorar verdadeiramente suas vidas, a de seus empregados e o futuro de suas empresas.

Esperamos que as histórias que estamos construindo possam ser replicadas com o apoio de toda a indústria. Essa iniciativa conta com a colaboração da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), da Associação Brasileira de Varejo Têxtil (ABVTEX), do Serviço Social da Construção Civil do Estado de São Paulo (Seconci-SP) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Com o apoio dessas organizações, queremos replicar os aprendizados que tivemos nesse processo, a fim de ampliar o alcance do programa Valor em Cadeia e melhorar as condições de trabalho de muito mais pessoas.

Valor investido na parceria:

R$
0
mil

Período de apoio:

0
anos

(2015-2017)

Nossos resultados

0

oficinas de costura participando do processo de capacitação

trabalhadores das oficinas capacitadas impactados indiretamente

engajamento na iniciativa da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX) e da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit)

Valor do apoio: € 450 mil (3 anos)
4.3

Transparência
revolucionária

Tornar as cadeias de fornecimento da moda mais transparentes irá exigir esforços conjuntos de organizações sociais, marcas, fábricas, trabalhadores e do público em geral. Carry Somers, fundadora do Fashion Revolution, estilista e diretora da Pachacuti, explica como o Fashion Transparency Index (Índice de Transparência da Moda) está ajudando a acelerar uma revolução na moda.

Neste momento, o público não tem informações suficientes sobre onde e como são feitas as roupas. Não podemos responsabilizar as empresas ou os governos se não podemos verdadeiramente saber o que está acontecendo. É por isso que criamos o Fashion Transparency Index.

Esse índice fornece subsídios sobre o quanto as pessoas podem descobrir a respeito das roupas que compram. Baseados em informações de domínio público, classificamos 100 marcas de acordo com as políticas que mantêm em vigor e quanto dessas informações elas divulgam ao público.

Mas o Fashion Transparency Index não é somente uma ferramenta para mudar o comportamento do consumidor. Estamos tentando mudar o contexto e a conversa sobre transparência para a indústria. E está dando certo. Temos observado um efeito cascata de comportamento positivo das marcas.

Nos últimos 12 meses, marcas como C&A, Marks & Spencer, Gap e VF Corporation publicaram suas listas de fornecedores. A Inditex publicou uma lista das instalações nas quais suas roupas são tingidas, lavadas, estampadas e onde o couro é curtido. E tanto a Uniqlo quanto a Jeanswest publicaram uma lista de 80% de seus fornecedores.

Nunca houve tanta transparência na indústria da moda. Há alguns motivos para isso. Primeiro, os clientes estão exigindo mudança. Em 2016, 129 milhões de usuários únicos se engajaram na campanha #whomademyclothes (quem fez minhas roupas). Considere esse fato em conjunto com políticas como a Lei da Transparência da Califórnia e a Lei da Escravidão Moderna, do Reino Unido. As pressões de cima e de baixo significam que, para sobreviver e prosperar, as marcas devem priorizar a transparência.

Bryan Berry
Claudio Orozco

Algumas marcas, como a C&A, estão começando a implementar soluções sustentáveis. Mas essa virada rumo a um futuro positivo para a moda ainda tem um caminho a ser trilhado. Das 40 marcas analisadas no Fashion Transparency Index, a pontuação média não passou de 42%.

Espero que as marcas usem esse índice para comparar sua pontuação com outras e façam perguntas como: “O que elas estão fazendo que nós não estamos?”. As pontuações podem ajudar as marcas a identificar lacunas em políticas, o que significa que elas podem fortalecer essas políticas e torná-las de conhecimento público.

O Fashion Transparency Index também apoia organizações que estão tentando gerar mudanças na linha de frente. Uma das perguntas que fazemos é: “Esta lista de fábricas é rastreável?”. Ter acesso a informações sobre os fornecedores ajuda ONGs, sindicatos e grupos comunitários a alertar as marcas mais rapidamente sobre violações ambientais e/ou de direitos humanos. De fato, as ONGs estão começando a usar achados do índice para pressionar as marcas a fim de que sigam as práticas da indústria no que toca à divulgação de informações sobre a cadeia de fornecimento. Esse diálogo é vital para a geração de mudança sistêmica.

Para avançarmos, planejamos aumentar de 100 para 150 o número de marcas no índice de 2018. Iremos também incluir marcas maiores, globais, assim como aquelas com linhas de grife privadas. E iremos oferecer nossa metodologia em código aberto para que todos possam utilizá-la para entender melhor como as políticas de transparência das marcas estão sendo colocadas em prática.

Alguns podem ter questionado se a Fashion Revolution era a mais indicada para criar o índice de transparência e a metodologia, considerando nossa experiência. Mas temos a forma, a experiência e as ferramentas necessárias para obter as informações que importam para marcas, clientes e imprensa de uma forma acessível e não acadêmica. Sabemos como usar comunicações criativas para inspirar pessoas a agir. Consultamos amplamente especialistas da indústria para melhorar nossa metodologia, mas também estamos procurando garantir que os achados do Fashion Transparency Index sejam entendidos e estejam criando um impacto real em todo o mundo.

Desenvolvimento do Fashion
Transparency Index

O número de marcas
classificadas subiu de
40 (2015) para 100 (2016)

2016

2015

Quais são as informações que as marcas compartilham sobre seus fornecedores?

0

das 100 marcas estão publicando suas listas de fornecedores (pelo menos os fornecedores diretos)

0

das 100 marcas publicam as instalações de processamento dos fornecedores, em que, as roupas são tingidas, estampadas e finalizadas

0

das marcas está publicando detalhes sobre seus fornecedores de matérias-primas

A história do Roberto
Há dez anos no Brasil, o boliviano Roberto nos conta como investiu em capacitação para conseguir uma vida mais digna para ele, sua família e os trabalhadores de sua oficina de costura.