Ação sustentável

Imagine uma produção de algodão que melhore a vida dos agricultores e que proteja o meio ambiente, em vez de degradá-lo.

Hoje, o mercado de algodão convencional tem levado ao uso excessivo de água e à poluição do solo, bem como a uma saúde fragilizada e a maus negócios para os agricultores, principalmente para os pequenos.

No entanto, quando o algodão é plantado de forma sustentável e vendido de forma justa, pode ajudar os pequenos agricultores, suas famílias e comunidades inteiras a prosperar. O algodão orgânico dispensa o uso de produtos químicos perigosos, protege a saúde dos agricultores, preserva o solo, conserva a água e ajuda as propriedades agrícolas a interromperem seu ciclo de dívidas. O algodão licenciado Better Cotton Initiative (BCI) reduz a dependência dos pesticidas e combate as ameaças de esgotamento da água e condições inseguras de trabalho. Precisamos explorar o potencial do algodão sustentável.

Mudar a totalidade do sistema significa trabalhar com marcas, redes, governos e agricultores em diferentes partes do mundo. Juntos, estamos criando uma visão compartilhada do que o mercado do algodão sustentável poderia ser. Estamos identificando lacunas e apoiando iniciativas que enfrentam esses desafios. Para mudar o sistema, temos de provar que uma mudança em larga escala é possível. Junto com nossos parceiros, estamos implementando soluções que permanecerão depois que nossos apoios tiverem se encerrado.

Ben Langdon

Nesta seção

  • 2.1

    Uma alternativa para o semiárido

    Creonice Dantas conta como a agroecologia está trazendo mais renda e transformando a vida de agricultores no semiárido nordestino.

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    Tatiana Cardeal
  • 2.2

    Soluções autossustentáveis

    Harry van der Vliet explica como a Solidaridad está apoiando agricultores a driblar a seca e retomar o plantio do algodão sustentável.

    LEIA MAIS
    Tatiana Cardeal
  • 2.3

    É preciso trabalhar coletivamente

    Lucas Simons relata como a Organic Cotton Accelerator está derrubando os entraves para o crescimento do mercado de algodão orgânico.

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    Ben Langdon
Valor do apoio: R$ 398 mil
(1 ano)
2.1

Uma alternativa para o semiárido

Creonice Dantas é agricultora da
comunidade de Riacho do Meio e é uma das
lideranças do projeto em beneficiamento de
gergelim.

Tatiana Cardeal

Dona Creonice é a história viva da comunidade Riacho do Meio, formada por 63 famílias. Ela passou pelo sofrimento de péssimas condições de vida quando vivia em uma fazenda onde seu pai era meeiro e hoje é uma das lideranças do beneficiamento de gergelim, que envolve jovens, e junto ao algodão, é responsável pela geração de renda para a comunidade.

Meu nome é Creonice Dantas, eu tenho sete filhos e dez netos. Minha comunidade se chama Riacho do Meio e foi criada a partir de um loteamento feito pelo Incra. Antes disso, eu vivia na Fazenda Feijão com meu pai, mãe e irmãos. Meu pai, que hoje tem 96 anos, era meeiro. Tínhamos que fazer três dias de obrigação para o proprietário da terra. Foram tempos muitos sofridos. Se colhêssemos 100 arrobas de algodão, entregávamos 50 para o patrão.

Quando a comunidade foi criada, plantávamos algodão, mas uma praga chamada bicudo se alastrou e as pessoas desistiram. Naquela época, não havia o sistema de consórcio. Além disso, tivemos recentemente uma seca de quase seis anos. Foi quando a organização social Esplar chegou à comunidade para nos ajudar com a retomada do algodão e nos apresentou o sistema de consórcios agroecológicos. Hoje temos feijão, milho, uma horta para consumo da comunidade, o gergelim e o algodão para venda e geração de renda. Temos também abelhas para produzir mel.

Neste projeto do Esplar, em parceria com o Instituto C&A, plantamos o algodão mocó e o algodão herbáceo. E, nesta retomada do algodão, está todo mundo interessado em plantar. O pessoal frequenta as reuniões, mas eu não posso ir, porque cuido dos netos, já que minha nora faz parte do projeto.

Com a retomada do algodão, surgiu também o cultivo do gergelim. A gente só plantava gergelim para fazer medicamentos, como remédio para curar a febre. Nós achávamos que o gergelim não tinha valor e por isso não plantávamos muito. Mas o Esplar nos informou sobre o valor que tinha o gergelim aí todo mundo ficou esperto e decidiu plantar mais gergelim. Do gergelim é possível fazer óleo, paçoca, rapadura, tahine, remédio, leite e borra, sobra do óleo que é alimento para os animais. Depois que começamos com o gergelim, só não faz mais dinheiro quem não quer. Pagamos os custos e o que sobra é nosso lucro. No caso dos jovens, quando eles se interessam, não tem canto melhor para viver.

Têm muitos jovens aqui na região que não têm emprego, por isso quando se juntam a um grupo, como o que tem aqui, eles passam a ganhar algo. Muito melhor do que ir para o mundo [quando os jovens migram para outras áreas em busca de emprego] e talvez se juntar com algo que não é certo. Então, agora, os jovens estão querendo ficar.

Outro benefício do convívio com o Esplar é que a comunidade passou a receber a visita de várias pessoas, com quem aprendemos que o veneno [pesticidas químicos] não são uma boa opção. Explicaram que isso traz problemas para a saúde e que há outros meios [de se proteger de pragas], sem precisar do veneno. As pessoas podem ficar doentes com o veneno. Tem um rapaz aqui perto que está doente por isso. Tem dia que fica com a pele toda pipocada, outras vezes fica inchado. O médico já disse que foi o veneno e que já está no sangue dele.

Aqui na região muitos já perceberam que não é bom usar veneno. Agora, a gente usa pesticidas caseiros, que são preparados com planta. Hoje, toda a plantação dos que fazem parte do projeto é orgânica.

Valor investido na parceria:

R$
0
mil

Período de apoio:

0
meses

(2016-2017)

O algodão mocó é uma variedade de algodão arbóreo semiperene e resistente à seca. Ao substituirmos as variedades de algodão que devem ser plantadas anualmente pelo algodão mocó, que cujo ciclo produtivo é de mais de cinco anos, espera-se que a produção de algodão orgânico na região seja maximizada.

Este é um dos focos da nossa parceria com o Esplar, uma organização com sede em Fortaleza, no Ceará, que há mais de 43 anos apoia a produção, o processamento e a venda de produtos gerados pela agricultura familiar. A produção é feita sem o uso de insumos agrícolas agroquímicos e com o plantio do algodão combinado com o cultivo de outros alimentos, em consórcios agroecológicos, como alternativa para a coexistência com o semiárido.

Valor do apoio: R$ 610 mil (1 ano)
2.2

Soluções
autossustentáveis

Tatiana Cardeal

Junto com a Fundação Solidaridad, estamos testando um modelo autossustentável de cultivo, para que produtores do semiárido de Minas Gerais e da Bahia possam retomar o plantio do algodão sustentável, aumentando a renda dessas famílias. Aqui, Harry nos fala sobre o início da implementação do projeto Tecendo Valor: Produção de Algodão Sustentável na Agricultura Familiar.

A vida dos agricultores de algodão está cada vez mais difícil. A seca na região do semiárido de Catuti (MG) e Guanambi (BA) se intensifica a cada ano. A presença do bicudo, praga que podedestruir plantações inteiras, vem há mais de dez anos fazendo o cultivo da fibra tornar-se cada vez mais complexa e pouco rentável. Como resultado, o cenário que encontramos foi de baixaprodutividade, envelhecimento da população no campo (por conta do êxodo dos jovens) e baixa renda. Mas acreditamos que essa realidade pode mudar.

Estamos construindo soluções junto com os pequenos agricultores locais para que eles possam plantar de forma mais sustentável, preservando o solo e a água e aumentando a produtividade da terra. Não podemos chegar a um lugar cheios de respostas prontas e certezas. Temos de ir com ideias, algumas soluções possíveis e prontos para ouvir. Foi assim que apresentamos o projeto Tecendo Valor para essas comunidades. E, a partir daí, utilizamos o conhecimento e a experiência da Solidaridad para compilar diversas boas práticas que observamos nas regiões onde atuamos, a fim de tornar a produção da cultura mais sustentável. Começamos avaliando o potencial de irrigação suplementar da região, treinando os agricultores em gestão, empreendedorismo e cooperativismo.

Também implementamos, em parceria com a Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) e com a Associação Mineira dos Produtores de Algodão (Amipa), 32 unidades técnicas para aprendermos e darmos escala ao trabalho que está sendo feito, construindo um modelo autossustentável para pequenos produtores de algodão. É nelas que instalamos os kits de irrigação por gotejamento para avaliarmos, junto com as famílias, a eficiência no uso da água que esse modelo traz.

Embora o projeto tenha menos de um ano, posso dizer que os pequenos agricultores locais estão bastante animados por participar dele e já conseguem perceber, na prática, como podem usar menos água para irrigar a mesma área em muito menos tempo.

Nos próximos cinco anos, o projeto atuará para aumentar a rentabilidade e a sustentabilidade das propriedades, melhorar a gestão de cooperativas e associações, atrair novos produtores e diversificar a renda das famílias. Também estamos analisando formas de engajar grupos tradicionalmente excluídos da atividade, como jovens e mulheres. Em 2017, daremos início ao ponto central da iniciativa: o apoio aos agricultores na conquista do licenciamento pela Better Cotton Initiative (BCI – Iniciativa por um Algodão Melhor), organização internacional que dissemina princípios e orientações para a melhoria contínua da fibra e das práticas de produção.

Valor investido na parceria:

R$
0
mil

Período de apoio:

0
meses

(2016-2017)

A parceria foi renovada por mais quatro anos, com um apoio de R$ 2.2 milhões no período.

A história da Sheela
Como a transição para o algodão orgânico pode mudar a vida de pequenos agricultores e o futuro de uma família? Sheela, que vive com a renda proveniente de uma pequena fazenda de algodão, explica.

Valor do apoio: R$ 600 mil (2 anos)
2.3

É preciso trabalhar
coletivamente

Apesar de muito investimento, o crescimento do mercado de algodão orgânico permanece lento. Por que isso ocorre e como podemos mudar? Lucas Simons explica como a Organic Cotton Accelerator (OCA) está reunindo esforços, antes fragmentados, para criar um impacto coletivo com poder de quebrar as barreiras ao crescimento.

Acredito plenamente que a mudança não vem de grandes organizações e corporações, mas de indivíduos dentro dessas organizações. Eu uso todo meu talento, empenho e energia para encontrar esses indivíduos, conectar-me e trabalhar com eles para criar modelos transformadores que tragam um valor muito maior para todos os envolvidos. Em última análise, isso cria um futuro melhor para meus filhos e para todas as gerações futuras.

Minha organização, a New Foresight, com sede na Holanda, é especializada em mudança de sistemas, transformando desafios complexos em oportunidades compartilhadas. Nós já trabalhamos na transformação dos mercados de café e de cacau e agora estamos trazendo nosso conhecimento para o setor do algodão, por meio de nossa parceria com a OCA. Eu não poderia desejar um trabalho mais gratificante e desafiador.

Quando se trata de gerar mudança, pode ser fácil gastar tempo e dinheiro tratando sintomas, em vez das causas do problema. Temos gasto milhões no treinamento de agricultores e em programas de certificação para promover o algodão orgânico, mas atingimos apenas uma pequena fração da produção total de algodão. Tentar resolver isso por meio de projetos individuais, programas de responsabilidade social empresarial ou voluntariado não irá funcionar. A verdade é que precisamos alinhar toda a indústria numa estratégia coletiva para enfrentar as causas básicas que dificultam o crescimento do mercado de algodão orgânico.

A boa notícia é que a maioria dos grandes compradores de algodão orgânico concorda que o sistema atual está falido. E é isso que torna a OCA única. Pela primeira vez, reunimos marcas que não estão comprometidas somente em comprar algodão orgânico, mas também em consertar o sistema. Isso prova que o setor está agora maduro o suficiente para dar um salto de atos individuais para a ação coletiva.

Identificamos que uma das maiores barreiras que impedem o crescimento é a falta de argumentos comerciais em favor dos agricultores. O preço mais alto pago pelo cultivo do algodão orgânico não chega ao agricultor. Aqueles que escolhem o cultivo orgânico estão conseguindo ir adiante porque seus custos de insumos são menores, mas eles não estão necessariamente ganhando mais por sua produção. No longo prazo, isso não é um sistema economicamente sustentável nem para os agricultores nem para as marcas.

No ano passado, Hilde van Duijn, diretora da OCA, concebeu um projeto-piloto para avaliar como podemos garantir que o valor a mais pago pelas marcas por algodão orgânico chegue ao agricultor.

Primeiro, pedimos às marcas que se comprometessem a comprar o algodão orgânico desde o início, mesmo antes de as sementes serem plantadas, e depois a acordar com seus principais fornecedores o diferencial que seria pago aos agricultores. Mas nós também quisemos garantir que aqueles no meio da cadeia de fornecimento estivessem interessados no orgânico. Entrevistamos os principais fornecedores sobre intervenções que as marcas fazem para incentivar a produção de algodão orgânico, tais como contratos de longo prazo e listas de fiações selecionadas para garantir a qualidade. Estamos tentando descobrir o que funciona melhor para podermos fazer recomendações mais embasadas no futuro.

Para avançarmos, queremos captar esse novo espírito de colaboração a fim de ganhar força e alinhar ainda mais a indústria em torno de um objetivo comum. Planejamos cocriar uma declaração pública com os líderes do setor que expresse nossa visão compartilhada para a área de algodão orgânico e faça uma chamada para a ação aos parceiros da OCA e aos outros para que se envolvam.

Eu realmente acredito que os mercados podem mudar. De fato, eles mudam constantemente. Se nos organizarmos, poderemos dobrar ou triplicar a participação de mercado do algodão orgânico.

Os membros da OCA representam 60% do mercado de algodão orgânico.

Até

4mil

agricultores foram apoiados pelos projetos-piloto da OCA

2015

Quatro marcas parceiras,
contribuindo com um total de:

€55 mil

Valor do apoio:

€91 mil

2016

Sete marcas parceiras,
contribuindo com um total de:

€585 mil

Valor do apoio:

€300 mil

A OCA apoia três universidades que estão conduzindo
pesquisas e testes com sementes de algodão:

1

Research Institute of Organic Agriculture (FIBL), na Suíça;

2

Jawaharlal Nehru Krishi Vishwavidyalaya (JNKVV), na Índia; e

3

Rajmata Vijayaraje Scindia Krishi Vishwavidyalaya (RMSKVV), também na Índia.